OS DESCENDENTES
29 01 2012
Sinopse
Matt King (George Clooney) é um marido indiferente e pai de duas meninas, que é forçado a reexaminar seu passado e abraçar seu futuro depois que sua esposa sofre um acidente de barco em Waikiki. O trágico acontecimento acaba por aproximar Matt das filhas, o que o ajuda na difícil decisão de vender um terreno herdado da família.
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ANÁLISE PSICOLÓGICA DO FILME – OS DESCENDENTES
PSC. Eliane de Almeida – elianealmeida@brturbo.com.br
De forma escancarada, nua e crua, o espectador vai entrando em contato com um drama trágico, através de imagens fortes e diálogos que aos poucos revelam a incapacidade do ser humano para se vincular. Incapacidade de vínculo que transforma toda a dinâmica de relacionamento de uma família, em uma tragédia silenciosa, que bem pode ser reproduzida em milhões de outros lares também.
Uma família destroçada, onde cada membro transforma-se em uma ilha, parodiando o local onde a história foi filmada. O contraste entre as belezas naturais das ilhas e o mundo obscuro e feio da família é visível em cada cena. As ilhas, vivenciadas por cada membro, revela o mundo à parte em que todos estão, porém, interligados a um tema comum, a destrutividade. Impossibilitados de estabelecerem vínculos que os levariam a desempenhar papeis, que os caracterizariam como pessoas dentro de uma família, a destrutividade, substituiu o alimento psíquico saudável do vínculo, o amor. Assim, construir papéis de mãe, pai, filhos e irmãos, que seria o de se esperar quando pessoas se juntam, nesta tarefa de constituir uma família, tornou-se um verdadeiro conflito e desafio para todos.
Famílias e papeis são vivenciados por pessoas, e os adultos desta família não necessariamente conseguiram em suas jornadas de vida este grande feito. Tornarem-se pessoas. Matt e Elizabeth, o casal, embrenharam-se em suas incapacidades, fragilidades e fugas, alimentando o caráter destrutivo da relação e da família como um todo. Matt, protagonizado por George Clooney, encontra-se ensimesmado numa repetição ancestral dos padrões de condutas de seus antepassados. Na repetição não consegue conectar-se com o presente, onde as necessidades são outras e requerem novas reflexões e diálogos. Longe de si mesmo e omisso em seus vínculos como marido e pai, vive num mundo próprio e egoísta, onde o trabalho substitui o contato com o outro. Um mundo onde as pessoas que estão à sua volta passam a não existirem. Esta negação de si mesmo e do outro gera uma solidão, onde mais do que vazio existencial, transmuta-se em desvinculação de sentimentos e auto-destruição.
Elizabeth, lutando contra sua impotência diante da realidade estabelecida, arma estratégias de fuga onde os desafios, a adrenalina dos esportes radicais, a bebida e a banalização do amor e sexo, fazem parte de seu cotidiano de isolamento e desistência da vida. Abandona seu papel de mãe, afastando-se das filhas e internando a mais velha num colégio distante em outra ilha. Está estabelecida a fragmentação da família. Omissão, desvinculação, distanciamento, desconhecimento, abandono, desproteção e ausência de amor.
Na adolescência, Alexandra, a filha mais velha, já tendo introjetado as condutas destrutivas da mãe, também coloca em andamento um estilo de vida onde a bebida e destruição afetiva e sexual povoam seus padrões de comportamento. O padrão destrutivo e da repetição já também se desenha na perdida e confusa filha menor, Scottie. Pelo abandono e falta de modelos positivos, se expressa com comportamentos inadequados e comunicação autodestrutiva.
Neste panorama desolador, resta aos espectadores, conectarem-se com as dores destes corações e almas partidas, através das expressões nos rostos dilacerados, de olhares profundamente vazios e corpos que se movimentam de forma pesada e dolorosa. Como traduzir todos os closes na face da morta em vida, Elizabeth, em seu leito mortuário. Uma expressão de morte em vida, onde a impotência choca nossos olhares sensíveis à sua tragédia. Impotência de uma luta sem possibilidades de final feliz, pois seus meios e ferramentas estavam completamente equivocados. A paralisação da vida em seu rosto poderia até, vir a ser um flash, daqueles que de vez em quando nos acomete quando algo de pavoroso nos atormenta. Mas a verdade crua é que não é um flash, é uma verdade definitiva e imutável. Daquelas que bem poderia traduzir nossas próprias dores em nossas vidas. O diretor insiste em nos confrontar com esta realidade algumas vezes, como que querendo reiterar uma mensagem macabra de sem saída. Cheque mate em todos. Impasse tenso em nossas mentes e corações entrelaçados com este drama trágico.
Somente diante do choque deste impasse com doses macabras, Matt deixa-se quebrar em suas muralhas defensivas e faz promessas, que revelam seu saber de antemão que seriam a solução para todo seu drama familiar, porém, nunca se atreveu a responsabilizar-se por elas. Nestes momentos de choque, tudo sai aos borbotões. Está bem, vamos conversar, vamos fazer coisas juntos, vamos viajar, vamos comprar seu desejado barco, vamos nos amar, vamos nos reencontrar, vamos ser marido e mulher, companheiros, pais, vamos facilitar a vida um do outro. No seu íntimo, ele sabia de todas as respostas, apenas fugiu de todas elas. Assim como todos nós fazemos, em nosso íntimo, sabemos de tudo que pode nos libertar e não nos conectamos de forma consciente, adulta e responsável com nossas próprias vidas.
Nossa deficiência em aprendermos a nos vincular, somente poderá ser superada em momentos máximos, dramáticos e trágicos de tensão e dor? Não haveria outras formas menos dolorosas para este aprendizado? Até quando, teremos que saber de milhões de histórias como esta, onde, membros de uma família têm suas vidas sacrificadas, sua sanidade mental aviltada, infâncias abusadas ou onde doenças psíquicas e físicas substituem e ameaçam a vida?
Nossa sociedade é pródiga em tapetes vermelhos e prêmios para grandes feitos. Não valorizamos o simples fenômeno de aprendermos sobre o que mais necessitamos. Conhecimento sobre si mesmo e sobre o outro com quem convivemos. Nem sequer paramos para nos questionarmos sobre quem somos e do que realmente precisamos. São repostas que não encontram brilho e respaldo no nosso mundo externo. Assim, aos trancos e barrancos, nas vias mais labirínticas de nossas existências é que somos lançados subitamente para a solução de nossos problemas pessoais, familiares e existenciais. É, à beira destes precipícios que somos forçados a realizar funções psíquicas de aprendizado e evolução, que fugimos por toda uma vida.
Como achar saídas num final trágico? Como recomeçar depois de uma tragédia? Como seguir em frente, e viver sem repetir padrões? Como sair da beira do precipício e dos labirintos em que nos colocamos? Como aprender com a perda trágica de um ente querido depois de sua morte? Como prosseguir com uma família amputada?
O diretor, sugestivamente, nos coloca em sua cena final, de frente com a simplicidade de sermos apenas humanos. Um pai dentro de sua casa, num sofá, embrulhado num cobertor com suas duas filhas, comendo e assistindo a um documentário saudável na televisão. Uma cena que nos remete à concepção simples e natural do que de fato é uma família. Pessoas, que estão sendo elas mesmas, no caso, um pai que é pai, filhas que podem ser filhas, e por isto mesmo podem desfrutar da companhia um do outro. Temos uma visão de intimidade, pessoas vinculadas, aquecidas e alimentadas pela simples presença de cada membro desta família.
Experiências de simplicidade, naturalidade, verdade, encontros, vínculos, quietude não são o suficiente para holofotes, tapetes vermelhos ou prêmio algum, porém é o básico e essencial para a proteção da vida, da sanidade mental e da saúde integral, das pessoas, famílias e sociedades.
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